Memória
Prêmio Profissionais da Música - 2020|2021
Homenageadas
Cássia Eller
Cássia Eller (Criação)

Verve, rebeldia, doçura, timidez, romantismo, atitude. Como era complexa Cássia Eller. Cada um tem uma história, uma tese, uma opinião sobre as escolhas, destino ou personalidade da emblemática cantora e multi-instrumentista que se foi aos 39 anos de idade... Só não dá para divergir quanto ao seu talento: este, gigantesco. Cássia tinha um estilo inconfundível e ao cantar a música de alguém, essa música se tornava, também, sua. Aliás, sua versão, não raro, transformava a primeira em secundária. E isso quando o autor já não passava ou escrevia a música especialmente para ela. Privilégios concedidos a --e conquistados por-- verdadeiros intérpretes. Tampouco, Cássia conseguia cantar de outro jeito que não fosse o seu. Em tudo na vida, nunca foi outra coisa senão 100% ela mesma, com todas as delícias e consequências de ser o que era. Não consta que tenha se arrependido.

Carioca, mudou-se muito na juventude em razão da carreira militar do pai. De volta ao Rio de Janeiro, aos 12 anos, ganhou um violão e aprendeu a tocá-lo ao mesmo tempo em que aprendia inglês, cantando Beatles. A cantoria em casa de dona Nancy também foi inspiração e aprendizado. Aos 18 anos, quando se mudou para Brasília, mergulhou na música de vez. Sem preconceitos e ainda sem saber que caminho seguir, traçou o que apareceu pela frente. Seu negócio era cantar, fosse em coral, ópera, banda de forró, musical ou trio elétrico. Barzinhos então.... Toda uma geração de Brasília fala com orgulho: “Ouvi a Cássia cantar milhares de vezes no Bom Demais”. Assim mesmo, com esse grau de intimidade. De fato, foi mesmo um privilégio. Dava para sentir que ela ia decolar.

A grande oportunidade aconteceu em 1989, quando seu tio Wanderson Clayton fez chegar à Polygram uma demo com a música “Por Enquanto”, de Renato Russo. O resto é história. Em 12 anos, foram inúmeras e definitivas parcerias, como a com o cantor e compositor Nando de Reis que marcou a ambos. Um encontro de almas. Gravou seis álbuns, um deles, póstumo. Shows foram centenas. No ano de sua morte, 2001, foi lançou o álbum acústico Acústico MTV (2001), que lhe rendeu o Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock e alcançou mais de um milhão de cópias vendidas. Uma estrela, enfim. Ou um segundo Sol?

Sua associação ao rock tem muita razão de ser. Não só por boa parte do repertório, mas por sua natureza rebelde, avessa à padronização e caretices. Mas um olhar atento enxerga uma artista absolutamente eclética, desprovida de preconceitos, com sede de música. Cantou Cazuza, Chico Buarque, Legião Urbana, Beatles, Hendrix, Piaf, Nando com a mesma entrega e brilho no olhar.

Em dezembro fará 20 anos que Cássia Eller foi embora. Mas será que se foi mesmo? Maria Eugênia, sua companheira, diz: “Eu vejo a Cássia todos os Dias no Francisco”, em referência a Chicão que carrega, além da música, o mesmo sorriso e olhar da mãe. A todos nós, resta lembrar, ouvir e homenagear uma existência tão rara.

Patricia Palumbo
Patricia Palumbo (Produção)

Jornalista formada pela PUC/SP em 1986, Patricia Palumbo atua no rádio desde os 18 anos abordando música e meio ambiente, principalmente. Há 22 anos criou o programa Vozes do Brasil, que repercute o melhor da música brasileira em 11 emissoras do país. Já em 2016 criou a Rádio Vozes, que se desdobra no ambiente digital em rádio web, aplicativo e plataforma de podcasts.

Além da marcante presença no rádio, Patricia muito contribui para o registro da música também através de livros. Até o momento já são três: Vozes do Brasil vol.1 e 2 e Entrevistas Reunidas. Neles, publica entrevistas com inúmeras personalidades da música, entre elas Cassia Eller, Luiz Melodia, Itamar Assumpção, Rita Lee, Elba Ramalho, Pato Fu, Chico César, entre outros.

Em 1998, levou o seu talento e missão de divulgar a música para a televisão e apresenta, desde então, a série Instrumental Sesc Brasil, pela TV Sesc. Paralelamente, realiza curadoria e consultoria musical para TV Cultura, Casa Brasileira e Itaú Cultural, além de ministrar oficinas de rádio, onde compartilhar sua paixão em atuar neste meio de comunicação que segue como o de maior audiência do país.

Também contribuiu com o cinema. É coautora do média metragem – Vozes do Brasil Do(co)mentado, com Helena Maura e Thiago Taboada, que correu festivais mundo a fora e, distribuído para escolas e bibliotecas, agrega conhecimento e história da nossa música em palestras e debates sobre a canção brasileira.

Seu trabalho e contribuição para a música brasileira é reconhecido e premiado. Pela APCA (Associação Paulista dos Criticos de Arte) foi premiada nas categorias “Melhor programação de FM”, “Melhor Âncora, “Melhor Programa de Música Brasileira”, e “Melhor Produção de Rádio” com o Maritaca, na Rádio Vozes.

Odette Ernest
Odette Ernest (Convergência)

Quando chegou da França, em 1952, Odette Ernest Dias, formada em flauta transversal, história da música e estética pelo Conservatoire National Superieur de Paris, já era uma instrumentista reconhecida e premiada por seu talento. Tanto que chegou ao Brasil pelo convite para integrar a Orquestra Sinfônica Brasileira. Sempre com brilhantismo, fez parte de inúmeras orquestras, inclusive as de rádio, e gravou com grandes artistas. Paralelamente à carreira de instrumentista, destacou-se como professora. Lecionou no Conservatório Brasileiro de Música e nos Seminários de Música Pró-Arte (RJ), na Universidade de Brasília (DF) e em inúmeras instituições como professora convidada.

A grande erudição com que lapidou seu talento em ambientes acadêmicos e tradicionais, não restringiram o alcance da artista ao universo clássico. Ao contrário, Odette se encantou pela música popular brasileira e tem seu nome citado entre os maiores flautistas do Brasil, ao lado dos geniais Pixinguinha e Altamiro Carrilho. A música que convida, que improvisa e que promove encontros movimentou seu apartamento em memoráveis saraus nos tempos em que viveu em Brasília. O Clube do Choro, importante patrimônio cultural da capital, nasceu desses encontros, na presença de Odette e também por causa dela.

Seu talento e interesse pela formação da música brasileira rendeu pesquisas, livro, discos, participação em eventos, atuação em filme e apresentações Brasil e mundo a fora. Ao longo de sua vida, vem se dedicando não apenas à sua música e arte, mas à cultura brasileira. Nas salas de aula, nas salas de concerto, nas incontáveis apresentações, em sua casa, onde cinco de seus seis filhos se tornaram instrumentistas, Odette, foi e é inspiração.